Newsletter · Flavia Del Valle
O que aquela manhã me ensinou sobre liderança
Por Flavia Del Valle
A manhã em que Ben nasceu
No dia 31 de outubro de 2022, às 5h15 da manhã, eu já estava acordada. Fiz minha leitura, meditei, orei e tomei meu café preto. Era uma segunda-feira de trabalho no Instituto Lapidare, e eu tinha um curso de dermatologia estética para mais de 40 médicos. Estava com 37 semanas de gestação.
Naquela manhã, eu tinha uma programação intensa. O instituto vivia um momento importante, com decisões sobre expansão e novos mercados. Estávamos discutindo como levar a operação de Santa Catarina para São Paulo ou Rio de Janeiro. Eu estava envolvida em tudo, acompanhando as aulas, os médicos, a equipe e os detalhes da operação.
O que eu não sabia era que, poucas horas depois, estaria no hospital dando à luz.
As cólicas começaram durante o curso. No início, tentei seguir normalmente. Eu já estava acostumada a trabalhar com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, a resolver problemas e a manter a operação funcionando. Continuei de salto alto, acompanhando o que acontecia no auditório e tentando administrar o desconforto.
As contrações foram aumentando. Eu precisava sair da sala, caminhar um pouco, sentar, levantar e encontrar uma posição que aliviasse a dor. Voltava para acompanhar o curso e, pouco depois, precisava sair novamente. Uma das pessoas da equipe comentou que eu poderia acabar tendo o bebê ali mesmo. Eu ouvi, mas ainda não tinha dimensionado o que estava acontecendo.
Em determinado momento, fui ao banheiro e encontrei a Shirley, minha parceira de tantos anos. Ela percebeu que alguma coisa estava diferente. Eu estava com dor, tentando entender se aquilo era realmente o início do trabalho de parto. Disse que iria até o carro para trocar de roupa.
Naquele momento, eu ainda estava pensando em resolver as coisas sozinha. Não pedi que alguém me acompanhasse. Não parei para organizar uma saída com a equipe. Apenas desci, entrei no carro e fui para o hospital.
Hoje, olhando para aquela decisão, percebo o risco que corri. Eu poderia ter entrado em trabalho de parto no caminho. Poderia ter precisado de ajuda e não ter ninguém comigo. Naquele momento, minha capacidade de resolver tudo sozinha parecia natural. Eu não parei para considerar que talvez precisasse de outra pessoa.
10h53Chegada ao hospital
Cheguei ao hospital às 10h53. Na recepção, minha bolsa rompeu. Quando fui examinada, estava com oito centímetros de dilatação. O trabalho de parto já estava avançado, muito mais do que eu imaginava enquanto tentava continuar o curso.
11h57Nascimento de Ben
Às 11h57, Ben nasceu. Aquela manhã, que tinha começado com café, oração, planejamento e uma agenda cheia, terminou com a chegada do meu filho.
Eu tinha vivido a maternidade muitos anos antes, com Pedro. A chegada de Ben aconteceu em outra fase da minha vida, quando eu já tinha construído empresas, liderado equipes, tomado decisões difíceis e aprendido bastante sobre responsabilidade.
Mas a experiência me mostrou algo que eu ainda precisava aprender sobre mim. Eu sabia conduzir uma operação, organizar pessoas, tomar decisões e lidar com situações imprevisíveis. Ainda assim, diante de uma situação que exigia cuidado comigo mesma, minha primeira reação foi continuar trabalhando e tentar resolver tudo sozinha.
Hoje, eu teria pedido ajuda. Não porque deixaria de ser responsável pelo que estava acontecendo, mas porque entendo que reconhecer o próprio limite também faz parte de uma boa decisão.
A notícia que chegou em Gramado
A história de Ben começou alguns meses antes, durante uma viagem em família para Gramado. Eu estava com Gustavo e Pedro quando descobri a gravidez. Estava com 12 semanas.
Foi uma gravidez não planejada. Nós nunca tínhamos tomado precauções para evitar uma gestação, mas também não estávamos esperando que ela acontecesse naquele momento.
Quando contei para a família, a notícia trouxe diferentes reações. Pedro perguntou se eu queria estar grávida. A pergunta fazia sentido. Ele já tinha vivido a experiência de ser filho único durante muitos anos e sabia que a chegada de um irmão mudaria nossa dinâmica.
A previsão de nascimento de Ben também me chamou a atenção. A data esperada era a mesma em que Pedro deveria ter nascido, cerca de vinte anos antes. Ben acabou chegando em 31 de outubro, antes da data prevista.
Durante a gravidez, eu continuei trabalhando. O Instituto Lapidare estava em uma fase de crescimento, e a expansão para outros mercados fazia parte das decisões que ocupavam meus dias. Eu estava envolvida na construção do negócio, nas equipes, nos cursos e nas escolhas que precisávamos fazer. A gravidez acontecia dentro dessa realidade, com todas as demandas que já existiam.
Naquele período, eu não pensava muito em como adaptar minha liderança. Minha tendência era continuar fazendo o que sempre tinha feito: assumir responsabilidades, organizar o que estava ao meu alcance e seguir em frente. A chegada de Ben me obrigou a olhar para essa maneira de conduzir a vida.
Quando a experiência virou método
Foi a partir dessa experiência que comecei a organizar algumas reflexões que, mais tarde, deram origem ao método FDV: Força, Direção e Voz.
Na minha palestra TEDx Vila Mariana, Você Não Precisa Gritar, publicada em julho de 2025, contei como a maternidade e a liderança se encontraram naquela manhã. Eu havia passado anos construindo negócios, formando equipes e tomando decisões. A chegada de Ben me fez perceber que a forma de liderar precisava acompanhar as mudanças que aconteciam na minha vida.
Na gravidez, comecei a olhar para a situação como olharia para um negócio. Fiz uma análise dos desafios, das oportunidades e dos riscos. Pensei no que precisava preservar, no que poderia mudar e em como administrar minha energia.
Meu principal indicador passou a ser a energia disponível. Eu precisava entender o que consumia minha energia, o que me fortalecia e quais atividades poderiam ser reorganizadas. Isso exigia escolhas sobre reuniões, processos, pessoas e prioridades.
A Força começou com a capacidade de assumir aquela nova realidade. Eu não podia controlar tudo o que aconteceria, mas poderia reconhecer a situação e decidir como responder. A experiência me ensinou que força também está em compreender o que precisa ser ajustado.
A Direção veio da necessidade de reorganizar a maneira como eu trabalhava. Passei a olhar com mais atenção para processos, responsabilidades e prioridades. Reuniões mais curtas, com duração de até 25 minutos, equipes menores e decisões mais objetivas começaram a fazer parte dessa reflexão.
A Voz ganhou outro significado. Eu precisava ouvir mais, compreender o que as pessoas estavam vivendo e criar conversas individuais que permitissem identificar problemas antes que eles se tornassem maiores.
Na palestra, compartilhei resultados que alcançamos naquele período: recorde de NPS, redução de 40% no retrabalho e zero burnout na equipe. Esses resultados estavam relacionados à maneira como organizamos o trabalho e conduzimos a liderança.
A experiência me mostrou que, quando alguma coisa muda dentro de nós, a forma de liderar também precisa mudar.
O que aprendi depois de construir uma empresa
O Instituto Lapidare ocupou uma parte muito importante da minha vida. Eu o construí com dedicação, conhecimento, trabalho e envolvimento pessoal. Acompanhei sua operação, desenvolvi projetos, formei equipes e participei das decisões que fizeram o negócio crescer. A expansão para São Paulo também representou uma etapa importante dessa construção.
Durante esse período, eu acreditava muito no que estávamos fazendo. Investia energia, tempo e conhecimento. O instituto era parte da minha vida, e eu me envolvia profundamente com cada decisão.
Mais tarde, quando comecei a transição da liderança executiva para uma atuação como conselheira, passei a observar as relações e as decisões de outra maneira. Uma empresa pode ter diferentes pessoas envolvidas em sua construção. Há quem invista, quem acredite, quem participe de decisões e quem execute a operação. Esses papéis têm valor.
Mas também aprendi que a percepção sobre quem construiu uma empresa pode mudar conforme as pessoas ocupam diferentes posições de poder. Em alguns momentos, ouvi pessoas dizerem que haviam criado o Lapidare. Eu sabia o que tinha feito. Sabia quanto trabalho havia colocado naquela construção, quantas decisões havia tomado e quantas pessoas havia reunido para fazer a operação acontecer.
Não precisava transformar essa diferença de percepção em uma disputa pública. A experiência me ensinou a compreender melhor as relações, os interesses e a maneira como as pessoas interpretam uma história empresarial. Também me ensinou que reconhecimento e autoria são assuntos importantes, mas que nem sempre serão tratados da maneira que esperamos.
Eu precisei aprender a olhar para essa história com mais distância. O que construí continua fazendo parte da minha trajetória, independentemente da maneira como outras pessoas escolham contar essa história.
Força, Direção e Voz hoje
Quando penso no método FDV atualmente, percebo que cada elemento ganhou outro significado.
Minha Força vem muito das experiências que não funcionaram como eu esperava. Os erros me ensinaram a analisar decisões, reconhecer padrões e entender o que precisa ser diferente. A resiliência que desenvolvi ao longo da vida está relacionada a essa capacidade de continuar, mas também de aprender com o que aconteceu.
Minha Direção ficou mais clara. Hoje, sei melhor o que quero construir e, principalmente, o que não quero mais fazer. Essa clareza influencia minhas escolhas profissionais, os projetos em que me envolvo e as pessoas com quem decido trabalhar. Depois de anos liderando empresas, tenho interesse em contribuir de outras maneiras. Quero participar de decisões estratégicas, apoiar empreendedores, atuar em conselhos e acompanhar negócios que tenham capacidade de construir algo relevante.
Minha Voz também mudou. Aprendi a ouvir com mais atenção e a observar o contexto antes de falar. Ao mesmo tempo, quero preservar minha capacidade de expressar o que penso, aquilo em que acredito e o que considero importante.
A experiência me mostrou que nem todas as relações profissionais são construídas apenas em torno de afinidade ou propósito. Existem interesses, expectativas e movimentos que fazem parte da vida empresarial. Compreender isso me ajuda a tomar decisões mais conscientes.
Não significa deixar de confiar nas pessoas. Significa reconhecer que confiança também precisa estar acompanhada de clareza, responsabilidade e critérios.
Quatro anos de Ben
Ben completa quatro anos em 31 de outubro.
Quando olho para aquela manhã no Instituto Lapidare, lembro da mulher que acordou às 5h15, tomou seu café preto, organizou o dia e tentou continuar trabalhando mesmo com as contrações. Lembro da decisão de dirigir sozinha até o hospital e de como tudo aconteceu rapidamente depois da chegada.
Naquela época, eu acreditava que precisava dar conta de tudo. Hoje, entendo melhor o valor de pedir ajuda, reorganizar prioridades e reconhecer quando uma situação exige uma resposta diferente.
A maternidade com Pedro me ensinou muito sobre ser mãe. A chegada de Ben trouxe outras perguntas, porque aconteceu em uma fase em que eu já tinha uma história profissional construída e precisava rever algumas escolhas.
A experiência também me ajudou a compreender que liderança não depende apenas da capacidade de conduzir uma equipe ou tomar decisões. Ela aparece na maneira como reconhecemos nossos limites, ouvimos as pessoas e escolhemos responder ao que acontece.
O FDV nasceu dessa reflexão. Força para reconhecer a realidade e aprender com ela. Direção para escolher o que faz sentido construir. Voz para expressar o que acreditamos e ouvir o que precisa ser compreendido.
“Ben chegou em uma manhã que eu havia planejado para trabalhar. Quatro anos depois, aquela manhã continua me ensinando sobre as decisões que tomo, a forma como conduzo minha vida e a liderança que quero exercer.”
Flavia Del Valle





