CONTEÚDOS SEMANAIS

Pensamentos sobre Negócios e Liderança

Textos semanais baseados em experiência real para quem decide e constrói.

Flávia Del Valle, CEO e palestrante TEDx especialista em liderança

O novo luxo é conseguir ficar em silêncio

O novo luxo é conseguir ficar em silêncio

“Todos os problemas da humanidade vêm de uma só coisa: a incapacidade do homem de ficar sentado, sozinho e em silêncio, num quarto.”

— Blaise Pascal, Pensamentos

Passei o fim de semana em São Paulo observando gente.

Aeroporto, restaurante, sala de espera, carro, mesa ao lado. Uma cena se repetiu em todos. Pessoas olhando para uma tela pequena.

A televisão que nunca termina

Algumas décadas atrás a televisão ficava na sala e reunia a família em volta dela.

Depois alguém teve uma ideia mais eficiente. Colocar uma televisão na mão de cada pessoa.

Essa televisão não tem programação fixa. Ela nunca termina. Sempre existe uma próxima coisa para assistir, uma próxima mensagem para responder, uma próxima pessoa para acompanhar.

O algoritmo aprendeu a entregar exatamente o que aumenta a permanência. E nós aprendemos a permanecer.

Os números de quem já cresceu dentro disso

72% dos adolescentes americanos já usaram um companion de IA
6% passam mais tempo com a máquina do que com pessoas
9% das crianças de 8 e 9 anos usam chatbot como companhia

O silêncio de dentro

O silêncio de fora é a parte fácil. Dá para desligar o telefone, passar horas sem televisão, viajar para um lugar tranquilo.

O difícil é o silêncio por dentro.

É ali que mora o que a gente evita o dia inteiro. A preocupação. A dúvida. A frustração. O medo. A necessidade de controlar o que ainda não aconteceu.

Não escrevo isso de fora. Também pego o telefone sem motivo. Também preencho intervalo que não precisava ser preenchido.

Onde isso encosta em decisão

Aqui está a parte que interessa a quem constrói empresa.

Fundadora que não consegue ficar em silêncio decide reagindo.

Recebe a notícia e responde na mesma hora. Vê o número cair e muda a estratégia na sexta-feira. Sente o desconforto de um conflito e resolve rápido para o desconforto passar, e não porque a decisão amadureceu.

Eu já adiei uma decisão difícil por seis meses. Quando finalmente tomei, levou quinze minutos.

O tempo inteiro eu achei que faltava informação. O que faltava era silêncio para olhar de frente o que eu já sabia.

Gargalo de decisão custa mais caro que gargalo de operação. Operação atrasada se recupera. Decisão adiada compõe.

O que autocontrole virou

Li o capítulo sobre autocontrole em A Lei do Triunfo, de Napoleon Hill. É um livro de 1928 e envelheceu em muita coisa. Esse capítulo, não.

Autocontrole hoje é conseguir sentir uma emoção sem fugir dela na mesma hora.

Receber uma notícia sem reagir. Ficar alguns minutos sem pegar o telefone. Não saber. Esperar. Não responder. Não consumir.

O nosso problema maior mora na incapacidade de ficar sem informação.

E começa cedo

Numa viagem recente vi uma criança de uns oito anos presa na tela enquanto os pais conversavam ao lado.

Tenho um filho de três anos que vai crescer dentro disso. A pergunta que me ocupa deixou de ser se a tela vai educar essa geração. Ela já está educando. A pergunta agora é quem desenhou essa aula.

Criança que recebe estímulo antes de aprender a lidar com o próprio pensamento não aprende pior. Ela não passa pela aula.

O novo luxo

Autocontrole virou uma das competências mais caras do nosso tempo.

O novo luxo mudou de lugar. Hoje ele é conseguir ficar em silêncio. Do lado de fora, e principalmente aqui dentro.

Controlar a própria atenção é uma das últimas formas de liberdade que sobraram.

Uma pergunta desta semana: quando foi a última vez que você ficou alguns minutos em silêncio, sem tela e sem preencher o vazio?

Outras edições

Flávia Del Valle | © Todos os direitos reservados.