“Se não te derem um lugar à mesa, leve uma cadeira dobrável.”
Shirley Chisholm
Teve recorde de mulheres no comando este ano. E quase ninguém olhou para quem saiu.
Esse foi o primeiro semestre de 2026 nas empresas de capital aberto do mundo, segundo a consultoria Russell Reynolds. 16%. O maior percentual em nove anos, e quase o dobro dos 8,7% do mesmo período do ano passado.
Li a matéria na Forbes e os comentários que ela gerou. O debate gira todo em torno de quem sobe. Pouca gente pergunta para onde vão as que saem.
A estatística que ninguém publica
Antes de olhar quem sai, vale olhar de onde veio esse recorde. Ele quase não veio dos Estados Unidos, onde as mulheres foram só 9% das nomeações no S&P 500, três em trinta e duas. O salto global veio da Austrália e da Europa. A porta do topo continua estreita, e muita mulher cansa de empurrá-la.
É aí que começa a estatística que ninguém publica.
Muitas saem cansadas da política interna. Algumas vão para consultoria e conselhos. Uma parte funda a própria empresa e assume a cadeira de CEO sem ser nomeada por ninguém.
Para onde vão as que saem é uma pergunta sem gráfico. Mas é a que mais me interessa.
Cada mulher que sai do topo leva anos de experiência com ela. Para a empresa, fica só uma vaga a preencher. Mas some a experiência dela, e some também o exemplo que a próxima mulher precisava ver para acreditar que ela também chega lá.
Cheguei por uma porta que eu mesma abri
Fundei uma comunidade médica que chegou a 20 mil médicos em 12 países e fui CEO dela por seis anos. Cheguei à cadeira por uma porta que eu mesma abri.
Lá dentro encontrei os mesmos problemas que afastam mulheres do topo corporativo. A decisão solitária. O operacional engolindo a agenda de estratégia. A culpa que chega junto com o horário do jantar.
Não eram problemas de uma empresa específica. Eram os problemas de quem lidera sem rede. E eles não pedem crachá nem tamanho de empresa para aparecer.
Empreender não é a saída
Sair do corporativo não resolve nada disso. Só muda quem assume o risco.
Por isso eu desconfio da narrativa de que empreender é a saída. Para muitas mulheres, é uma porta lateral para o mesmo cargo, com menos estrutura de apoio.
No próprio negócio, o chefe difícil vira a folha de pagamento que não espera. A política interna vira a solidão de decidir sozinha.
O teto de vidro não cai quando você abre a própria empresa. Às vezes ele só muda de endereço.
Dizer isso não é desencorajar ninguém a empreender. É parar de vender empreendedorismo como fuga, porque quem entra achando que é fuga leva o susto no primeiro mês.
O que muda o resultado é método
O que muda o resultado não é trocar de cadeira. É método.
- Arquitetura de decisão, para que a escolha difícil não trave na sua mesa.
- Delegação desenhada antes de faltar tempo, não depois do colapso.
- Preço que sustenta a operação, em vez de preço que só paga o mês.
Repare que nenhuma dessas três coisas cabe no discurso de “largue tudo e viva do seu propósito”. Elas não dão frases bonitas de palco. Mas são o que separa o negócio que dura do que fecha no segundo ano.
No Método FDV, isso é Força, Direção e Voz aplicadas a uma virada de carreira: a força de assumir o risco com consciência, a direção de decidir onde o seu tempo entra, e a voz de cobrar o que o seu trabalho vale.
Se você vai empreender, busque estrutura antes de buscar liberdade. A liberdade vem depois dela, nunca antes.
Esta semana, se você saiu do corporativo e hoje lidera o próprio negócio, me conta: qual problema você achou que ia deixar para trás e encontrou de novo?
Me responde nos comentários ou por e-mail. Leio todas.
Flávia
Perguntas frequentes
Quantas mulheres foram nomeadas CEO em 2026?
No primeiro semestre de 2026, mulheres ocuparam 21 de cerca de 130 novas nomeações de CEO em empresas de capital aberto no mundo, o equivalente a 16%, segundo a Russell Reynolds.
O percentual de mulheres CEOs está crescendo?
Sim, nesse recorte. Os 16% são o maior percentual em nove anos de acompanhamento da Russell Reynolds e quase o dobro dos 8,7% do mesmo período de 2025. O avanço se concentrou na Austrália e na Europa; nos EUA, as mulheres foram só 9% das nomeações no S&P 500.
Empreender é a melhor saída para mulheres que deixam o corporativo?
Não necessariamente. Sair do corporativo não resolve a decisão solitária, o excesso de operacional e a falta de estrutura. Sem método, empreender tende a reproduzir o mesmo cargo com menos apoio.
Por que o teto de vidro persiste mesmo no próprio negócio?
Porque os problemas de quem lidera sem rede não dependem de crachá nem do tamanho da empresa. O chefe difícil vira a folha de pagamento; a política interna vira a solidão de decidir sozinha.
O que faz uma empreendedora sustentar o próprio negócio?
Método: arquitetura de decisão, delegação planejada antes de faltar tempo e um preço que sustenta a operação, e não só paga o mês.
Fontes: Russell Reynolds, Global CEO Turnover Index (1º semestre de 2026), memorando republicado no Harvard Law School Forum on Corporate Governance. Forbes Brasil, “Mulheres Ganham Espaço entre Novos CEOs em 2026”.






