“Quando uma medida vira meta, ela deixa de ser uma boa medida.” Marilyn Strathern, resumindo a Lei de Goodhart
Seis vagas para cada dez médicos.
Essa foi a proporção, em 2024, entre as vagas de entrada na residência médica e os recém-formados em medicina no Brasil. Ela explica a medicina brasileira melhor do que qualquer manchete sobre “médicos demais”.
Na semana passada, eu te mostrei uma descoberta de 1984. Benjamin Bloom demonstrou que o aluno acompanhado individualmente, no próprio ritmo, aprende muito mais do que o aluno da sala comum. O obstáculo sempre foi o custo.
A medicina tem a versão mais próxima desse modelo que eu conheço: a residência. Um preceptor, poucos residentes, anos de prática supervisionada. É cara, e é exatamente por isso que funciona.
O Brasil decidiu escalar a parte barata da formação médica e racionar a parte cara. Essa escolha tem consequências que aparecem nos números.
A CONTA QUE O BRASIL ESCOLHEU FAZER.
Em outubro de 2025, o país somava 494 escolas de medicina e quase 51 mil vagas de graduação por ano. Oito em cada dez estão em instituições privadas. Entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, foram autorizados 77 cursos novos.
O Brasil fechou 2025 com cerca de 635 mil médicos. A projeção do estudo Demografia Médica é ultrapassar a média de médicos por habitante dos países da OCDE em 2028 e chegar a mais de 1,1 milhão em 2035.
Visto de cima, o problema está resolvido. A meta era ter mais médicos, e ela vai ser batida.
É aqui que entra a epígrafe.
O número de médicos virou meta, e a pergunta que ele deveria responder ficou para trás: o paciente está sendo atendido por alguém preparado, no lugar onde ele mora?
Quando se faz essa pergunta, aparecem dois furos.
O PRIMEIRO FURO: O DIPLOMA CHEGA ANTES DA FORMAÇÃO.
Em 2024, o Brasil teve 27.263 recém-graduados em medicina e 16.189 vagas de residência de acesso direto. Faltaram 11 mil vagas. Em 2018, o déficit era de 3,9 mil. Em seis anos, quase triplicou.
O efeito acumulado já aparece no total: 40,9% dos médicos em atividade no país não têm título de especialista.
O generalista bem formado é necessário, e a atenção primária depende dele. O problema começa quando ficar sem especialização deixa de ser escolha e vira o destino de quem não encontrou vaga.
Esse médico costuma ir para o plantão de pronto-socorro e para a cidade pequena. Lá ele atende casos graves sem nunca ter sido supervisionado naquilo. A responsabilidade que a formação deixou em aberto fica com ele. O risco fica com o paciente.
A VAGA QUE EXISTE E FICA VAZIA
Aqui o dado fica estranho. Mesmo com o déficit, 19% das vagas de residência autorizadas para 2024 ficaram sem ocupante, segundo a AMB. No painel do MEC de maio de 2025, a ociosidade chegava a 27,9% do total de vagas.
A vaga vazia tem endereço. A ociosidade é maior no Norte (29,7%) e no Centro-Oeste (28,7%) e menor no Sul (23,2%). Em Mato Grosso, 40,7% das vagas estão sem residente.
Falta vaga onde todo mundo quer estar e sobra onde a necessidade é maior. Por isso, abrir vaga também não resolve sozinho. O que decide se ela será ocupada é o programa, o preceptor, a estrutura do hospital e o futuro que o médico enxerga depois dela.
O SEGUNDO FURO: MÉDICO SOBRA ONDE JÁ TEM
58% dos médicos do Brasil estão em 48 cidades, as que têm mais de 500 mil habitantes. Nas capitais, a oferta de médicos por habitante chega a ser 366% maior que no interior.
O Sudeste tem 3,77 médicos por mil habitantes. O Norte tem 1,70. As 4.895 cidades menores reúnem 31% da população e 8% dos médicos.
A formação segue o mesmo mapa. 54% dos residentes estão no Sudeste, 31% só no estado de São Paulo. Quem se forma no Norte muitas vezes sai para se especializar e não volta. No Acre, 62,9% dos médicos formados entre 2018 e 2021 foram se registrar em outro estado, segundo o CFM.
Formar médico no interior sem oferecer especialização no interior é formar médico para o Sudeste.
O QUE EU VI LEVANDO O TREINAMENTO ATÉ O MÉDICO.
Tenho interesse direto nesse tema, e prefiro dizer isso logo. Trabalho com educação médica depois da faculdade, e a EME Doctors existe nesse espaço.
Em 2024, tomamos uma decisão de arquitetura: parar de esperar o médico na sala de aula e levar o treinamento até onde ele trabalha. Em 2025, foram 5 estados. Em 2026, já são 8 estados, 51 cidades e 14 instrutores.
Em agosto, treinamos 322 profissionais em um único mês. O recorde anterior era 117.
Esse número me ensinou uma coisa sobre o mapa que acabei de mostrar. A demanda por formação fora das capitais é real e grande. O médico do interior quer treinar. O que faltava era a formação ir até ele, com prática, supervisão e repetição perto de onde ele atende.
Treinamento não substitui residência. Mas encurta a distância entre o diploma e a prática segura enquanto a vaga daquela região não existe, ou existe e fica vazia.
POR QUE ISSO É EDUCAÇÃO, E ONDE A EDUCAÇÃO NÃO ALCANÇA.
Educação sozinha não fixa médico no interior. Salário, plano de carreira, estrutura de trabalho e vida familiar pesam tanto quanto.
Mas a educação decide duas coisas que salário nenhum resolve: se o médico chega preparado ao primeiro plantão, e se ele encontra motivo para ficar onde se especializou.
No Método FDV, isso é Direção. Volume o Brasil já tem, 51 mil vagas de graduação por ano mostram isso.
O que falta é decidir para onde esse volume vai e quem responde por ele depois do diploma.
Hoje, ninguém responde. A faculdade entrega o diploma, o sistema conta o número e o médico se vira.
Se eu pudesse mudar uma coisa, mudaria o indicador. Em vez de médicos por mil habitantes, mediria médicos preparados por mil habitantes, contados onde os pacientes estão.
Semana que vem, a última parte da série: a inteligência artificial chegando na medicina, e a pergunta que ela coloca para quem está se formando agora.
Esta semana, uma pergunta, principalmente se você é da saúde: você já viu um médico recém-formado sozinho diante de um caso para o qual ninguém o preparou? O que aconteceu?
Me responde este e-mail. Leio todas.
Flávia





