CONTEÚDOS SEMANAIS

Pensamentos sobre Negócios e Liderança

Textos semanais baseados em experiência real para quem decide e constrói.

Flávia Del Valle, CEO e palestrante TEDx especialista em liderança

A nova lei do burnout tem um ponto cego. Você é ele.

A nova lei do burnout tem um ponto cego. Você é ele.

A lei chegou. A fundadora ficou de fora — e o que fazer com isso.

“O que não é medido não pode ser gerenciado.”

— Peter Drucker

Uma cena que ficou comigo

Em 2023, eu estava dirigindo de volta pra casa depois de um dia longo.

Eram quase 23h. Tinha saído às 7h. No meio do caminho, meu celular vibrou — mensagem de fornecedor sobre entrega atrasada.

Respondi no semáforo.

Cheguei em casa, meu marido perguntou como tinha sido o dia. Disse “cansativo” e fui verificar o e-mail antes de dormir.

Não era heroísmo. Era ausência de sistema.

Não havia nada que me dissesse quando parar, o que priorizar, o que delegar. Eu era o único ponto de controle — e havia normalizado isso como se fosse parte do trabalho.

A virada não foi dramática. Foi uma pergunta simples que não consegui responder: se eu parar, o que para junto?

Tudo.

Quando a resposta é tudo, o problema não é o cansaço. É a arquitetura.

A ideia da semana: a lei que chegou — e onde ela para a NR-1

A NR-1 entrou em vigor esta semana.

A norma obriga empresas a mapear riscos psicossociais — incluindo burnout — no gerenciamento de saúde dos funcionários. Os números que justificam a medida são sérios: afastamentos por burnout cresceram 823% em quatro anos, de 823 casos em 2021 para 7.595 em 2025.

É um avanço real para quem tem vínculo empregatício.

Quem assina o CNPJ não está nessa contagem. Não por esquecimento — por estrutura. A lei protege relações de emprego. Fundadora não é empregada da própria empresa.

Isso não é uma injustiça a lamentar. É uma variável a endereçar.

Em 1974, Christina Maslach — psicóloga da UC Berkeley — foi a primeira a nomear burnout como fenômeno clínico. Estudou médicos, professores, assistentes sociais: pessoas cuja identidade está fundida com o trabalho, para quem parar parece falha.

O que torna o achado de Maslach útil não é o diagnóstico. É o que ele implica: padrão reconhecível pode ser monitorado. O que pode ser monitorado pode ser gerenciado.

A fundadora que entende isso não espera que uma lei faça o mapeamento por ela.

Uma observação de mercado

Existe um padrão que observo com frequência.

Fundadoras não descrevem o que sentem como burnout. Descrevem como “uma fase”. Como “o preço de construir do zero”. Como cansaço que vai passar quando a situação melhorar.

E o mercado reforça: quem trabalha 14 horas vira case de dedicação. Quem decide sozinha vira símbolo de força.

O burnout não aparece como doença. Aparece como currículo.

Esse é o risco real: não é o esgotamento em si. É a incapacidade de reconhecê-lo porque você aprendeu a chamar exaustão de identidade.

Nenhuma lei resolve isso. O que resolve — se você construir — é um sistema próprio de monitoramento. Indicadores simples. Perguntas semanais. Uma pessoa de confiança com permissão para dizer o que você não quer ouvir.

Uma pergunta para você

Você tem algum indicador do seu próprio esgotamento?

Não precisa ser sofisticado. Pode ser uma pergunta que você faz toda semana. Um padrão de comportamento que aprendeu a reconhecer. Alguém com quem verifica periodicamente.

Se não tem — vale perguntar por quê.

A sua empresa provavelmente tem dashboards para receita, custo, conversão. Quantos desses monitoram quem assina as decisões?

Se essa edição fez sentido para você, encaminha para uma fundadora que precisa ler isso.

Outras edições

Flávia Del Valle | © Todos os direitos reservados.