Newsletter #031 · Série em seis edições, 1 de 6
Por Flávia Del Valle
“A vida só pode ser compreendida olhando para trás. Mas só pode ser vivida olhando para frente.”
Søren Kierkegaard







Em 9 de dezembro de 2019 nasceu o instituto que eu dirigi por seis anos. A primeira turma estava em andamento quando chegou março de 2020.
A pandemia fechou as salas. Formação médica, com prática e paciente, virou tela. Os médicos resistiram: aprender a colocar a mão no paciente por uma câmera parecia contradição. Pivotamos para o online com a turma rodando, objeção por objeção. Funcionou.
Sou Flávia Del Valle, estrategista de negócios de saúde. Seis anos e milhares de médicos depois, consigo ver o que eu faria de outro jeito. Essas lições viraram critérios. Cada uma custou prejuízo: financeiro, de tempo ou de sociedade.
Esta edição abre uma série de seis: hoje as cinco recomendações, nas próximas a história de cada uma.
Por que o erro se repete enquanto o negócio cresce
Annie Duke, em Thinking in Bets (2018), chama de “resulting” o hábito de julgar uma decisão pelo resultado. Turma lotada vira prova de que a estrutura estava certa. O resultado bom esconde a decisão frágil até o dia em que o resultado muda.
Em educação médica a demanda perdoa muito. O Brasil formou 32,6 mil médicos em 2023 e caminha para 42 mil por ano, segundo a Demografia Médica 2025. Vagas de residência de acesso direto em 2024: 16,2 mil. E demanda farta esconde, por anos, erro de arquitetura.
A demanda em educação médica
Fontes: Demografia Médica 2025 (USP/AMB); g1/APM, setembro de 2026.
Na barra do ballet, onde passei minha primeira vida, o exercício é sempre o mesmo. O que corrige o corpo é uma observação precisa, dita uma vez. Empresa funciona igual: sem alguém nomeando o erro, a turma seguinte consolida o erro na estrutura.
As cinco recomendações
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Esteira de produtos
Nunca lance um produto sem saber o passo seguinte do aluno dentro da sua esteira.
Esteira de produtos, numa clínica ou instituto de ensino médico, é a sequência do que o cliente compra ao longo da relação. Se, ao terminar, ele não tem para onde ir, o produto ainda não está pronto.
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Certificação
Nunca abra um instituto sem certificação própria.
Em seis anos, a certificação sempre veio de parcerias com faculdades. Boas parcerias, e ainda assim uma decisão estratégica que nunca foi inteiramente nossa. Se eu abrisse um instituto hoje, a certificação própria viria antes da primeira turma.
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Sociedade
Nunca entre numa sociedade sem a regra de saída escrita no dia da entrada.
Quem decide o quê, e como cada um sai. Isso se combina enquanto a relação está boa.
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Time
Nunca aumente o número de alunos antes de estruturar o time.
Em dezembro de 2019 éramos três. As turmas cresceram mais rápido que o time, e por um tempo cada pessoa fazia três funções. Funciona até deixar de funcionar; o custo chega de uma vez.
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Recorrência
Nunca deixe a recorrência para depois.
Tentamos uma plataforma de assinatura e eu não dei foco a ela. Resultado: seis anos de receita construída turma a turma, começando de novo a cada lançamento. Recorrência se desenha no primeiro ano, quando ainda parece cedo.
Esta semana
- Escolha a recomendação que mais incomodou.
- Escreva em uma frase qual decisão sua ainda a ignora.
- Marque, nos próximos sete dias, a conversa ou o documento que corrige isso.
Olhar para trás é o que permite decidir melhor para frente.
Qual das cinco você reconhece no seu negócio? Responde este e-mail com o número. As respostas definem a ordem das próximas edições.
Na quarta que vem: a sociedade que se desfez em um ano e meio, e as duas cláusulas que eu exigiria hoje antes de assinar.
A série, em seis edições
- 04/11As cinco recomendações
- 11/11Sociedade sem regra de saída
- 18/11O passo seguinte do aluno
- 25/11Time antes de volume
- 02/12Certificação própria
- 09/12Recorrência
Flávia Del Valle
Referências
Annie Duke, Thinking in Bets (Portfolio, 2018), conceito de “resulting”.
Demografia Médica no Brasil 2025, USP e AMB: projeção de 42 mil formandos por ano.
g1 e APM, setembro de 2026: 32.611 médicos formados em 2023 e 16.189 vagas de R1 de acesso direto em 2024.
Epígrafe: Søren Kierkegaard, anotação de 1843 nos Diários, tradução livre.





