A saúde virou um filme contínuo. E a maioria ainda não sabe assistir.
Viver mais com dados: o que a revolução da longevidade ainda não resolveu
CONTEÚDOS SEMANAIS
Pensamentos sobre Negócios e Liderança
Textos semanais baseados em experiência real para quem decide e constrói.
“Take your time, babe, it’s not as bad as it seems. You’ll be fine, babe, it’s just some rivers and streams in between you and where you wanna be.” Glen Hansard, “Song of Good Hope”, a canção que Eddie Vedder cantou na despedida do amigo. (Vá no seu tempo. Não é tão ruim quanto parece. Você vai ficar bem. São só alguns rios e riachos entre você e onde você quer chegar.)
Semana passada, uma amizade de quinze anos se despediu numa catedral em Dublin. Ela tinha começado com uma ligação para um estranho.
Em 2010, Glen Hansard, o músico irlandês, passou por uma dura perda durante um show da própria banda. Uma dessas coisas que marcam todo mundo que estava ali.
No dia seguinte, o telefone tocou. Do outro lado, Eddie Vedder, o vocalista do Pearl Jam. Os dois nunca tinham se falado.
Eddie ligava por um motivo que quase ninguém teria. Anos antes, tinha atravessado o luto de uma tragédia em um show do Pearl Jam, em Roskilde, na Dinamarca. Ele sabia, no corpo, o peso que Glen começava a carregar.
Conversaram por horas. No outro dia, Eddie ligou de novo. E no seguinte também.
Foi assim que nasceu uma amizade que durou quinze anos.
Repare no gesto.
Eddie não mandou uma mensagem educada. Não esperou um amigo em comum apresentar os dois. Não procurou a palavra certa, porque sabia que ela não existia.
Ele só ligou. E voltou a ligar, quando a maioria já teria pensado “não quero incomodar”.
Não tinha conselho para dar. Tinha algo mais raro: a autoridade de quem sobreviveu ao mesmo golpe. Presença é isso. Aparecer, e voltar a aparecer, mesmo sem ter a solução.
Isso tem tudo a ver com quem lidera.
Quem constrói uma empresa carrega decisões que ninguém ao redor consegue dividir. O time é leal, a família apoia, mas nenhum dos dois sabe o peso de assinar a folha no mês em que o caixa não fecha. De desligar alguém de quem você gosta. De decidir sozinha sabendo que, se der errado, o erro é seu.
Essa é a solidão que não aparece no organograma.
E ela quase nunca é resolvida por quem te ama. É resolvida por quem já sentou na mesma cadeira. Alguém que passou pela mesma queda e consegue dizer, sem romantizar: eu sei, eu passei por isso, continua…
A maioria de quem empreende adia procurar essa pessoa, porque parece fraqueza. Carregar sozinha um peso que dava para dividir vira desperdício, não força.
No fim de julho, Glen partiu, aos 56 anos. Tinha ganhado um Oscar pela canção “Falling Slowly”, de um filme pequeno, feito quase sem dinheiro, chamado Once.
Semana passada, a St. Patrick’s Cathedral se encheu. E Eddie levantou para cantar por ele.
A amizade que começou com uma ligação… terminou com uma canção na despedida. No meio, quinze anos de dois homens que se ampararam porque cada um sabia o tamanho do que o outro carregava.
No fundo, essa história é sobre não liderar sozinha.
Pense em quem, na sua vida, está vivendo um momento doloroso que você já viveu. E mande a mensagem que você vem adiando, para pedir ou para oferecer.
Foi assim que uma das amizades mais bonitas da música começou. Uma ligação que não esperou.
Toda quarta às 10h.
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Viver mais com dados: o que a revolução da longevidade ainda não resolveu

A sala tem teto alto e luz morna, gente falando baixo, e no meio dela aquele mármore branco que parece ter parado de se mover um segundo antes de eu chegar.
Duas da tarde, sol a pino, e ela nadando sozinha no fundo. Eu contemplei.

A máquina de lavar devolveu horas às mulheres, mas nem todas ficaram com o tempo. Flávia Del Valle escreve sobre por que a IA repete essa história e o que decide quem sai na frente.