CONTEÚDOS SEMANAIS

Pensamentos sobre Negócios e Liderança

Textos semanais baseados em experiência real para quem decide e constrói.

Flávia Del Valle, CEO e palestrante TEDx especialista em liderança

A saúde virou um filme contínuo. E a maioria ainda não sabe assistir.

“Saber não é suficiente, é preciso aplicar. Querer não é suficiente, é preciso fazer.”

Goethe

Da fotografia para o filme

Durante um século, a nossa saúde foi uma fotografia anual. Você ia ao médico uma vez por ano, ele tirava um retrato, e você seguia no escuro até o próximo.

Isso está virando um filme contínuo.

O médico Daniel Kraft, formado por Stanford e Harvard e uma das vozes mais conhecidas sobre o futuro da medicina, resume a virada. Estamos saindo do “sick care”, o cuidado que só reage à doença, para um cuidado que acompanha o corpo o tempo todo e pega o problema no estágio zero, antes de virar estágio três.

E não é promessa. Já existe, hoje.

O Apple Watch identifica arritmia pelo pulso. O estudo conduzido pela Universidade de Stanford, publicado no New England Journal of Medicine, mostrou isso em larga escala, e em 2024 a agência de saúde americana reconheceu a função como instrumento de pesquisa clínica.

Sensores no braço acompanham a glicose minuto a minuto, hoje até sem receita. Algoritmos de imagem fazem triagem de doenças em lugares onde não existe um especialista para ler o exame.

O que antes você descobria tarde, o filme mostra cedo. É isso que sustenta o otimismo da longevidade.

A indústria que vende o filme

E onde há promessa de vida longa, há uma indústria gigantesca.

A economia do wellness chegou a 6,8 trilhões de dólares em 2024, segundo o Global Wellness Institute. Para você ter dimensão: é quase quatro vezes o tamanho de toda a indústria farmacêutica. Dobrou em dez anos.

Tem uma coisa que quase ninguém diz em voz alta sobre esse boom. Quem o sustenta, em grande parte, são mulheres. Somos nós comprando o anel que mede o sono, o app que conta a glicose, o exame que promete a resposta para tudo.

Guarde essa informação. Ela volta mais forte no fim.

O dado não é a decisão

Aqui começa a parte que me preocupa.

Ter o dado e agir sobre o dado são duas coisas separadas por um abismo. E o abismo não é tecnológico. É humano e estrutural.

Tem quem atravesse esse abismo. Guilherme Benchimol, o fundador da XP, contou num podcast recente que acompanha sono, percentual de gordura e colesterol com o mesmo rigor que usa para o faturamento e o EBITDA da empresa. Fez testes genéticos com um nutricionista e trocou a força de vontade pelo autoconhecimento do próprio corpo.

Só que repare no que isso exige. Teste genético, acompanhamento, tempo, dinheiro. O dado vira decisão quando há acesso, método e alguém para agir sobre ele. Para a maior parte das pessoas, o sensor apita e nada acontece.

E trava por três motivos que quase ninguém junta.

O primeiro: os incentivos

A maior parte dos sistemas de saúde paga quem trata a doença, não quem a evita.

O médico é remunerado pela consulta, pelo procedimento, pela internação. O modelo inteiro foi desenhado para o que já quebrou, não para o que dava para impedir.

Então a tecnologia de prevenção chega a uma engrenagem que não foi feita para usá-la. Você tem o sensor que avisa a arritmia meses antes, e um sistema que só sabe ganhar dinheiro depois do infarto.

Não adianta o filme ser em alta definição se ninguém é pago para assistir.

Isso não é só saúde. É uma lei que todo fundador conhece na pele: você recebe o comportamento que recompensa. Se a sua empresa premia quem apaga incêndio, vai ter incêndio para sempre. O incentivo desenha o resultado.

O segundo: os vieses

O segundo problema é mais silencioso.

Modelos treinados com populações pouco representativas erram mais justamente com quem já é mal atendido.

Um estudo publicado na Science, em 2019, mostrou isso de forma escandalosa. Um algoritmo usado para decidir quais dos cerca de 200 milhões de pacientes precisavam de mais cuidado tinha um atalho: media a gravidade de cada pessoa pelo quanto o sistema de saúde já tinha gastado com ela. Quem custou mais ao sistema era considerado mais doente.

O problema é que o sistema historicamente gasta menos com o paciente negro do que com o branco de mesma gravidade. Então, diante de dois pacientes igualmente doentes, o algoritmo via menos dinheiro gasto no paciente negro e concluía que ele era mais saudável. Pacientes negros eram encaminhados menos vezes para o cuidado que precisavam. Corrigir a falha levaria essa fatia de 17,7% para 46,5%, quase o triplo.

Uma ferramenta que deveria distribuir cuidado com justiça acabou repetindo a desigualdade, com cara de neutralidade científica.

O terceiro: o corpo que faltou na pesquisa

Agora eu volto para as mulheres.

A mulher é a maior consumidora da indústria da longevidade. Só que a medicina que sustenta essa indústria foi construída, por décadas, no corpo do homem.

A doença cardíaca é a que mais mata mulher no mundo. Mesmo assim, segundo a American Heart Association, numa revisão de estudos entre 2010 e 2017 as mulheres foram cerca de 27% dos participantes nas pesquisas de doença coronariana. E as diretrizes muitas vezes recomendam a mesma dose para homem e mulher, apesar de a mulher ter risco de 1,5 a 1,7 vez maior de reação adversa a certos remédios do coração.

Junte as duas pontas. A mulher é quem mais paga pela promessa de se conhecer por dados. E os dados, na origem, quase não foram coletados no corpo dela.

Um sensor não corrige isso sozinho. Se o modelo por trás foi calibrado num corpo que não é o seu, ele vai te medir com a régua errada, e com toda a autoridade de um número.

O que fica

O próximo salto da longevidade não vai vir só de mais sensores ou mais dados.

Vai vir de decisões que nenhuma tecnologia toma sozinha. Redesenhar os incentivos, para pagar por saúde e não por doença. E validar os modelos nas populações que vão de fato usá-los, mulheres inclusive, não numa média que não existe.

No Método FDV, é a diferença entre Força e Direção. Força é a capacidade nova: o dado, o sensor, o modelo. Direção é saber o que fazer com ela, e para quem. Capacidade sem direção não salva ninguém. Só acelera na direção errada.

E tem uma pista que não custa 6,8 trilhões. Semana retrasada eu escrevi sobre a Sardenha, uma das regiões onde mais se vive no mundo. Ninguém ali comprou longevidade num anel. Foi comida de verdade, movimento, vínculo e tempo. A tecnologia pode adiantar o diagnóstico. A vida longa, de verdade, ainda se constrói fora do aplicativo.

Esta semana, uma pergunta que serve para a sua empresa também: qual dado você já tem na mão e ainda não transformou em decisão?

Toda quarta às 10h.

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