A saúde virou um filme contínuo. E a maioria ainda não sabe assistir.
Viver mais com dados: o que a revolução da longevidade ainda não resolveu
CONTEÚDOS SEMANAIS
Pensamentos sobre Negócios e Liderança
Textos semanais baseados em experiência real para quem decide e constrói.
“Não é que tenhamos pouco tempo. É que desperdiçamos muito dele.” Sêneca, Sobre a Brevidade da Vida
Uma praia perto de Porto Cervo. Duas da tarde, sol a pino. O tipo de calor que faz a areia queimar a sola do pé e o mar parecer a única ideia sensata do dia.
Eu estava nadando quando reparei nela. Uma senhora, oitenta anos pelo menos, sozinha, na parte funda. Nadava firme. Depois boiou de olhos fechados, o rosto virado para o sol, o corpo solto na água como quem não tem pressa de chegar a lugar nenhum.
Ela saiu depois de mim.
Ao pisar na areia, o corpo balançou, perdeu o equilíbrio por um segundo. Não caiu. Se ajeitou e seguiu andando. Eu, de longe, fui atrás com o olhar.
Foi aí que vi o encontro. Um senhor, mais ou menos da idade dela, também tinha saído da água. Os dois se acharam no meio da praia como quem faz isso há cinquenta anos. Poucas palavras. Passaram protetor solar um nas costas do outro, devagar, com um cuidado que já não precisa de palavra. Sentaram nas cadeiras, debaixo do mesmo guarda-sol.
Eu fiquei olhando. Meu marido do meu lado. Viemos à Sardenha comemorar nossos 25 anos de casados, e ali, diante daquele casal, eu enxerguei o que quero que a gente seja daqui a mais 25. Deu vontade de levantar e ir conversar com eles. Não fui. Só guardei.
E reparei numa coisa. Não eram oito da manhã, o horário em que a gente espera ver os mais velhos na praia. Eram duas da tarde. No auge do dia. No auge do sol.
Aquele casal é o retrato de como a ilha inteira vive.
Aqui, quase tudo que se come nasceu por perto. À tarde, tudo para. As famílias sentam, e quase ninguém está com o celular na mão. Existe um cuidado com o que é de todos que a gente parece ter desaprendido.
E esta ilha está mexendo com a palavra que eu mais uso no trabalho: sucesso.
Fui pesquisar, porque encantamento sem dado é só cartão-postal.
A Sardenha é uma das regiões mais pobres da União Europeia. O PIB por habitante fica em torno de 68% da média europeia. O desemprego passa de 8%, contra cerca de 6,5% da Itália. Boa parte dos jovens vai embora para trabalhar em outro lugar.
Pela régua da economia, a Sardenha perde.
Só que existe outra régua. No interior da ilha há uma das poucas Zonas Azuis do mundo, as regiões com o maior número de pessoas que passam dos 100 anos. É o único lugar do planeta onde os homens chegam aos 100 na mesma proporção que as mulheres. No resto do mundo, para cada homem centenário há cinco mulheres. Aqui, um para um.
Os motivos que a ciência aponta são exatamente o que eu vi na praia. Movimento natural no dia a dia. Comida de verdade. Menos estresse. Vínculo. Uma vida vivida no presente, não adiada.
Eles perdem no PIB e ganham na única métrica que ninguém recupera depois: anos de vida, e vida dentro dos anos.
Agora a parte incômoda, porque eu não vim aqui vender “largue tudo e vá morar numa ilha”.
O modelo sardo tem uma conta. A economia paga por ele. Os jovens que emigram pagam por ele. Não existe escolha sem fatura.
Mas tem uma pergunta que a Sardenha devolve para quem constrói empresa: qual métrica você persegue, e quem escolheu ela por você?
A maioria de nós corre atrás de crescimento sem nunca ter parado para decidir se era isso mesmo. A gente herdou a régua. E paga a fatura dela em horas, em presença, em saúde, sem nunca ter assinado embaixo.
O convite da Sardenha é escolher a sua régua com consciência, no lugar de obedecer a uma que você nunca questionou.
Volto pensando naquela mulher saindo do mar às duas da tarde. Aos 80 anos, no auge do sol, ela estava vivendo o dia inteiro, sem guardar a vida para um depois que talvez nem venha.
A parada da tarde aqui não é preguiça. É prioridade. O nome da minha newsletter, nesta ilha, virou paisagem.
Esta semana, uma pergunta só: qual régua você usa para medir a sua vida, e foi você quem escolheu ela?
Toda quarta às 10h.
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Viver mais com dados: o que a revolução da longevidade ainda não resolveu

A sala tem teto alto e luz morna, gente falando baixo, e no meio dela aquele mármore branco que parece ter parado de se mover um segundo antes de eu chegar.
Duas da tarde, sol a pino, e ela nadando sozinha no fundo. Eu contemplei.

A máquina de lavar devolveu horas às mulheres, mas nem todas ficaram com o tempo. Flávia Del Valle escreve sobre por que a IA repete essa história e o que decide quem sai na frente.